A vida
e o que a gente faz com ela
Na correria da vida - entregar o IR e pagar boletos, fazer mercado e faxina -, a gente esquece, ou eu ao menos tenho esquecido, do que é lento e bom. Ler um livro que não é trabalho. Ler uma frase e ficar olhando pro vazio.
Alguns dos meus autores do coração são também trabalho. Jamais assinarei embaixo daquela frase, “trabalhe com o que você ama e deixe de amar”; não, não, eu ainda os amo, mas é tão fácil esquecer por quê, quando os prazos apertam.
Nesta semana (quinta, dia 4), vou participar de um debate sobre o filme Escrevendo a vida: Annie Ernaux pelos olhos dos estudantes, que integra a Mostra Ecofalante. O documentário saiu ano passado na França e fui acompanhando os comentários, de longe; agora (agora mesmo) estou assistindo e fazendo pausas, de tempos em tempos, para olhar para o vazio, para reler com os estudantes franceses e franco-guianenses os trechos citados.
Um deles lê o trecho que dá título ao filme, que integra uma introdução que Ernaux escreveu em 2011 para o volumão da edição Quarto com alguns de seus livros. O volumão tem como título Écrire la vie, Escrever a vida, e ela escreve assim:
Escrever a vida. Não a minha vida, nem a vida de alguém, nem sequer uma vida. A vida, com o que ela contém, que é o mesmo para todos, mas que cada um experimenta individualmente: o corpo, a educação, o pertencimento e a condições sexuais, a trajetória social, a existência dos outros, a doença, o luto. Acima de tudo, a vida que o tempo e a história não param de modificar, destruir e renovar. Não tentei escrever sobre mim mesma, transformar minha vida em obra: eu me utilizei dela, dos acontecimentos, geralmente banais, que a atravessaram, situações e sentimentos que coube a mim conhecer, como se fossem um material a ser explorado de modo a apreender e trazer à tona algo da ordem de uma verdade sensível. Sempre escrevi ao mesmo tempo de mim e fora de mim, o “eu” que passa de um livro para o outro não pode ser atribuído a uma identidade fixa e sua voz é atravessada pelas outras vozes, as dos pais, as sociais, as que nos habitam.
Mas a vida não dita nada. Ela não se escreve sozinha. Ela é muda e informe. Escrever a vida mantendo-se o mais próximo possível da realidade, sem inventar nem transformar, é se inscrever em uma forma, em frases, palavras. É enveredar - cada vez mais, ao longo dos anos - em um trabalho rigoroso, uma luta, que tento delimitar e entender no próprio texto, à medida que me dedico a ele.
Annie Ernaux, Introdução a Écrire la Vie, trad. livre Mariana Delfini
“O corpo, a educação, o pertencimento e a condição sexuais, a trajetória social, a existência dos outros, a doença, o luto.” Quem já leu alguma coisa da Ernaux identifica a obra dela aqui, este ou aquele livro: o do pai, o da paixão, o do aborto, o da mãe.
E é bem bonito e tocante ouvir os adolescentes que se identificam com o que está escrito ali, sejam as experiências ligadas à classe social, seja a linguagem - ainda estou no começo do filme, deve vir mais por aí. É bonito porque eles estão na escola, descobrindo a si mesmos e a literatura; conhecendo uma literatura que não é Victor Hugo, como um deles diz, e cuja autora ganhou o Nobel mesmo não sendo - justamente por não ser - Victor Hugo.
É muito fácil, porém, saltar deste ponto aqui para o ponto perigoso (e tão comum) do: bom, no fim das contas é sobre isso que todo mundo escreve, não é? Ou ir mais longe: qualquer um pode então escrever a vida, já que é só sobre isso que ela escreve, e não sobre eventos grandiosos e únicos.
Estou sendo didática demais? Perdoem. É domingo, e estou tentando seguir um raciocínio (sem apontar dedos, sem citar nomes, sem entrar em polêmicas cansativas e repetitivas porque acho infantil demais querer lacrar com a obra alheia).
Vou jogar aqui o Drummond que demole tudo:
Não faças versos sobre acontecimentos.
Não há criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.
Não faças poesia com o corpo,
esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.
Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro
são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.
Não cantes tua cidade, deixa-a em paz.
O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas.
Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.
O canto não é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.
A poesia (não tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto.
Não dramatizes, não invoques,
não indagues. Não percas tempo em mentir.
Não te aborreças.
Teu iate de marfim, teu sapato de diamante,
vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família
desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável.
Não recomponhas
tua sepultada e merencória infância.
Não osciles entre o espelho e a
memória em dissipação.
Que se dissipou, não era poesia.
Que se partiu, cristal não era.
Vou parar aqui, neste ponto de “A procura da poesia”, e voltar pro segundo parágrafo ali da Ernaux. O trecho onde ela diz que a vida não se escreve sozinha. “Ela é muda e informe. Escrever a vida mantendo-se o mais próximo possível da realidade, sem inventar nem transformar, é se inscrever em uma forma, em frases, palavras.”
Agora a gente volta pro Drummond (que eu cito sempre, o tempo todo, eu sei):
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada
no espaço.
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave?
Repara:
ermas de melodia e conceito
elas se refugiaram na noite, as palavras.
Ainda úmidas e impregnadas de sono,
rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.
*
Vocês acham que Drummond se colocaria onde, nas discussões que aconteceram quando o Nobel foi concedido a ela, de acordo com o que Rachel Cusk no perfil que escreveu de Ernaux?
Na França, país que se tem em alta conta por sua cultura literária, a notícia do Nobel provocou uma irrupção febril de orgulho, mas também explosões assombrosas de veneno. Como é que uma mulher que só escrevia sobre si mesma podia ganhar o maior prêmio literário do mundo? Madame Ovary, como foi chamada por um crítico francês conservador, era o exemplo paradigmático da erosão da arte literária pelas narrativas de autocomiseração e marginalização. A inteligência - e até a sanidade - do comitê do Nobel parecia estar sendo questionada. Me explicaram que, na França, expor aspectos pouco glamourosos da realidade feminina - as reclamações da bonne femme, ou dona de casa - era amplamente considerado de mau gosto. Ao que parece, havia também a questão do ciúme - do sucesso de Ernaux, do frescor dos leitores dela, e agora desse grande prêmio - por parte da velha guarda literária masculina. Mas, para mim, essas explicações eram desnecessárias: as agressões eram simplesmente a evidência de que o ponto nevrálgico da verdade havia sido tocado.
Rachel Cusk, “O impacto da sinceridade”. Trad. Mariana Delfini, perfil publicado na revista Quatro Cinco Um
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Quem quiser assistir ao filme Escrevendo a vida: Annie Ernaux pelos olhos dos estudantes, de Claire Simon, pode apenas chegar e pegar ingresso gratuitamente uma hora antes, no Reserva Cultural, em São Paulo. Tem sessão dia 4 e dia 10; o debate acontece dia 4. No perfil do Instagram da Mostra Ecofalante dá pra se informar também.
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ÚLTIMOS DIAS
Aproveito pra lembrá-los que estamos nos últimos dias de inscrição para o curso Histórias de vida (e morte) de Emmanuel Carrère, que estou oferecendo em junho e julho. São 5 aulas online, síncronas, em que vamos percorrer a trajetória literária dele nos últimos 25 anos, passando por 10 livros diferentes (Ioga, O Adversário, Um romance russo, Limonov...)
A última aula é sobre Colcoz, o livro mais recente, que sai dia 7 de julho no Brasil com tradução minha. Os alunos do curso terão 10% de desconto na Amazon (cumulativo) para comprar qualquer livro do Carrère durante o mês de junho.
Para se inscrever, pode ser pelo Sympla (R$ 825, em até 12 vezes) ou direto comigo (R$ 750 no Pix), pelo email cursosdelfini@gmail.com.
As aulas começam dia 10 de junho e vão acontecer às quartas, das 19h às 21h.
Venham!


Mas que beleza esse seu texto! Logo com um dos poemas mais marcantes de Drummond, que fala tão profundo sobre essa coisa bonita que é escrever.... Obrigada também pela dica da Mostra, com o filme sobre Ernaux.
Uns dias atrás, o "A procura da poesia" apareceu na apostila da minha turma de 9º ano e imediatamente me lembrei da Ernaux. É impressionante como, depois que a gente a conhece, ela aparece em tudo! Muito animada e ansiosa para assistir ao documentário e ver o debate!