Vulcão
Vida é lava
Somente depois que se fez silêncio no mundo foi possível distinguir com alguma nitidez o único som então audível: o do coro dos vulcões.
Talvez esta frase tenha se tornado um dos meus inícios de livro favoritos. É do Krakatoa, da Veronica Stigger, publicado no fim de 2024.
Era um som discreto e algo melancólico. Embora quase inaudível, era potente. Não sei dizer se era bonito. Talvez porque não se encaixasse em nossas categorias estéticas, ou talvez porque eu não soubesse mais discernir o belo do seu avesso.
(Veronica Stigger, Krakatoa)
Gostei do Krakatoa quando o li, na virada do ano. Agora reli duas páginas e estou obcecada: quero reler tudo e possivelmente rabiscar todas as páginas com corações (ou explosões), para poder conversar com as palavras tão precisas que ela escreveu.
O site da Todavia chama o livro de “experiência vertiginosa” e não vou discordar.
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Na semana passada assisti aos dois documentários lançados em 2022 sobre o casal de vulcanólogos franceses, Katia e Maurice Krafft: Fire of Love, de Sara Dosa (com um título horrível no Brasil, então manterei o original), e The Fire Within: A Requiem for Katia and Maurice Krafft, de Werner Herzog. Desde então estou tentando escrever sobre eles e sobre vulcões.
Fire of Love eu já tinha visto, em 2022. Tinha ficado fascinada pelas imagens (é claro) e pela narração dos primeiros minutos, principalmente, quando a voz de Miranda July expõe a ideia central do filme: contar a vida dos dois cientistas como um casal apaixonado - um pelo outro e ambos, pelos vulcões.
Na semana passada assisti novamente e confesso que senti um leve constrangimento, vez ou outra, com a pieguice e o romantismo meio infantilizado de alguns trechos. Ainda assim, o comecinho me comoveu bastante de novo. Talvez, se eu visse de novo agora, nem isso. Quem sabe.
Assim como no amor, existem mistérios. Você se apaixona profundamente pelo que conhece. E mais profundamente ainda pelo que não conhece. […] “Compreensão” é outro nome para o amor.
A sequência onde aparece este frame abaixo, com música tocando em volume alto (a edição desse filme é uma delícia), virou pra mim uma representação do amor. Duas pessoas sozinhas na beira do precipício, juntas.
O filme do Herzog, achei que seria mais difícil de assistir, pelo único motivo de que implico um pouco com o Herzog por causa do filme da caverna de Chauvet. Talvez eu devesse rever o da caverna. Desde a semana passada estou tentando terminar The Fire Within. Sinto que preciso começar de novo, do começo, mas não consigo.
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“Telúrico”: eu adoro essa palavra. É um bom adjetivo pra descrever a primeira parte de Krakatoa, quando a Veronica cria monólogos para o carvão, o gelo, a água, o fogo, o petróleo. “Telúrico” é aquilo que diz respeito à Terra, ao solo. No entanto, por causa do som dessa palavra, principalmente do elú, eu sinto que ela remete menos ao chão e mais ao céu, ao ar, ao incorpóreo, que não tem substância. Queria que a palavra significasse o oposto dela.
Delulu também tem elu.
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É claro que foi por causa do acidente trágico da Juliana Marins que voltei a pensar em vulcões. E também por causa do poema da Júlia de Carvalho Hansen, que, desde que ela postou no Instagram, antes mesmo do livro Ano passado ficar pronto, me impressionou muitíssimo e não saiu de mim. Comprei o livro na Feira do Livro e ganhei a bandeira verde que o traz impresso. Não sei onde colocar essa bandeira, ela é essencial e excessiva.
Vai que de repente
a gente está chamando de explosão
aquilo que pro vulcão
é o fluxo.
(Júlia de Carvalho Hansen, Ano passado)
Tenho no pulso direito uma tatuagem que diz “(explosão)”. Assim, entre parênteses, porque é uma explosão contida. É o que a Clarice Lispector inventou em A hora da estrela para representar, sem palavras mas com palavras, reações da personagem Macabéa. Minha tatuagem é com a caligrafia dela, da Clarice, que tirei de um manuscrito. Ela explica sem palavras com palavras muita coisa de quem sou - ou fui? Recentemente li o poema da Júlia e tenho repensado o que significa (explodir).
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O filme Fire of Love explica pra gente que existem os vulcões vermelhos, os de lava, aqueles que a gente sempre imagina quando pensa em vulcão, e os vulcões cinza, que lançam as nuvens piroclásticas, de gás quente, cinzas e pedras. Estes últimos são os perigosos de verdade, porque é difícil prever o momento da explosão e porque a nuvem percorre o solo numa velocidade altíssima, temperatura idem, e vai destruindo tudo por onde passa.
As imagens dos vulcões vermelhos são lindas. A lava é linda. O casal Krafft se filma perto da lava, filma a lava nas formas mais oníricas, com aquela textura pegajosa inacreditável, a lava esfriando e endurecendo em rochas de formatos de órgãos, de vida paralisada.
As imagens dos vulcões cinza são assustadoras, principalmente as do que (não) sobra depois da passagem da nuvem que sai deles.
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Foi um vulcão cinza, o Nevado del Ruiz, que devastou a cidade de Armero, na Colômbia, em novembro de 1985. Vulcanólogos tinham avisado o governo do risco da explosão, mas foram ignorados e o resultado foi a morte de mais de 20 mil pessoas.
Os dois filmes mostram esse horror. O de Herzog, me parece, é mais horrível.
O casal Krafft ficou indignado com o fato de terem descoberto tantas informações novas sobre vulcões e, mesmo assim, não serem levados a sério pelo poder público. Eles passaram a se dedicar mais à divulgação científica, fazendo livros e filmes.
Foi um vulcão cinza, o Monte Uzen, que os matou no Japão, em 1991.
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Uma tese do Herzog em The Fire Within, a partir das imagens que principalmente Maurice Krafft faz com a câmera ao longo dos anos, é que ele deixou de ser cientista e se tornou cineasta. Herzog enuncia essa ideia e a demonstra numa comparação das primeiras gravações com as que vieram depois. É uma boa tese, mas me incomoda. A montagem deixa as cenas de destruição passarem por muito tempo, com poucos cortes, em silêncio. Tenho dificuldade em ver beleza na destruição.
Mas a lava me fascina.
Objetos cotidianos cobertos de cinzas, numa casa destruída e vazia, também me fascinam.
Também tenho dificuldade com a edição de Fire of Love, que eu disse logo acima ser deliciosa. Parece que o storytelling (casal apaixonado etc.) prevalece sobre as informações específicas (à exceção da diferenciação dos vulcões), como se vulcão fosse vulcão, ponto-final, não importa onde nem qual.
Talvez eu esteja sendo injusta, falando assim de memória (e sem ter vontade alguma de voltar aos filmes), mas gostei mais da abordagem quadradinha do Herzog, que individualizou os vulcões. Se eu terminasse de ver o filme, talvez pudesse dizer que para os Krafft, segundo o Herzog, ou apenas para o Herzog, os vulcões são personagens, mais que cenário. Não sei se dá para dizer isso, não sei se vou terminar o filme.
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O Etna não é um vulcão, mas uma vulcoa. Tem 700 bocas e é mãe. Com tantas bocas, surpreenderia se não cantasse.
(Veronica Stigger, Krakatoa)
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Meu filho está de férias, brincando (em volume alto) do meu lado de “Chão é lava” (meets Pokémon). Sempre pensei que isso fosse uma brincadeira importada dos Estados Unidos. Tem um reality para crianças que inunda cenários coloridos de um líquido vermelho pegajoso, e, dublados toscamente, alguns adultos infantilizados tentam cruzar de um lado ao outro, quase nenhum consegue.
Outro dia, vi meu filho lendo uma revistinha da Turma da Mônica em que os personagens inundavam a casa de um deles (da Magali?) de gelatina vermelha e pulavam de móvel em móvel (mais ou menos como está acontecendo aqui ao lado) com medo de afundar na lava.
Tenho pensado em variáveis para essa frase tão sonora e sintética. Sonho é lava. Vida é lava. Amor é lava.
(acabei de explodir: POR FAVOR PARA DE GRITAR)
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O Krakatoa é personagem no livro da Veronica: ela o narra a partir de suas últimas quatro erupções antes de desaparecer, em agosto de 1883, reunindo notícias de jornais (principalmente brasileiros) que dão notícia das consequências dessas explosões finais. “Pode-se dizer que a explosão do Krakatoa foi ouvida no mundo todo; pela primeira vez, o barômetro serviu de telefone”, escreveu um jornalista francês.
Muitos ficamos mobilizados com o acidente da Juliana Marins. Conversei com amigas, imaginamos coisas, traçamos hipóteses otimistas. Depois de ver os filmes do casal Krafft, minha imaginação passou a ter mais informações, mais imagens, e pensar em uma pessoa caída num vulcão ficou insuportável. Vulcão, pra mim, virou uma representação da morte. Uma pessoa sozinha na beira do precipício.
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Um vulcão nunca dorme.
(Veronica Stigger, Krakatoa)
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A música do Herzog também me irrita profundamente. Tem Verdi, Bach, Wagner. Ele diz que o filme é um réquiem. Eu penso em PowerPoints que nós, os 40+, recebíamos por email dos nossos familiares mais velhos nos anos 2000. Imagens de natureza e música clássica tocando ao fundo, com transições que variam a cada slide.
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Estou tentando esquecer o poema da Hilda Hilst, que no entanto é inesquecível.
Quem és? Perguntei ao desejo.
Respondeu: lava. Depois pó. Depois nada.
(Hilda Hilst)
Se eu tivesse lido mais Bataille, falaria de desejo e morte. Li muito pouco, quase não li. Quem fez Fire of Love não leu tampouco. É tudo fofo demais no filme.
Não sei se consigo ainda, ou por enquanto, criar metáforas e comparações com vulcões. Botar música pra tocar quando eles aparecem. Eles são imensos, e estão vivos.
Veronica Stigger, Krakatoa. Todavia, 2024.
Júlia de Carvalho Hansen, Ano passado. Nós, 2025.
The Fire of Love, dir. Sara Dosa, 2022. Disponível na Disney Plus.
The Fire Within, dir. Werner Herzog, 2022. Disponível no Mubi.



Que texto lindo, Mari! Me identifico de ficar fascinada pelas histórias que se passam perto ou em vulcões.
Pensei no Vesúvio e em como sua erupção foi a destruição de Pompeia e, ao mesmo tempo, um caminho para que séculos depois a antiguidade fosse redescoberta.
Fiquei com vontade de ler e assistir as indicações, belo texto.